sábado, 5 de novembro de 2011

Fugaz

Me lembro do dia em que parti e parti sabendo que voltaria, que era uma ida banal mas necessária, uma intervenção cirúrgica e eu regressaria, mas ainda assim, eu me lembro do dia em que parti.
Eu lia um livro daqueles que marcam, que marcam muito. Me sentei do lado esquerdo, na poltrona da esquerda, de modo a olhar a janela. Eu sempre amei as estradas, todas, sempre as amei. Amei e amo as estradas porque nelas sinto materializadas todas as minhas necessidades de fuga, naquele momento eu fugia da dor do ano, do momento, da minha vida, da solidão e também do motivo que me levava à uma cirurgia, mas isso era o de menos, eu amava as estradas.
Mais do que amar as estradas, eu amo as estradas à noite e amo a fuga. Me lembro que do meu lado se colocou uma senhora, não me deu trabalho, eu lia meu livro, observava a paisagem e amava a noite que arrumava no céu todos os astros e me mostrava, assim como ora escondia a luminosidade. Eu olhava ainda as pessoas, outra coisa que amo, olhar as pessoas.
Eu olhava as pessoas porque nas estradas escuras eu fugia e fugia sabendo que estava fugindo, as olhava sabendo que elas também fugiam, e que fugiam sabendo que estávamos todos fugindo pro mesmo lugar. Que fuga inútil!
Eu levava na mala as roupas, ora eu fugir sem minhas roupas, jamais. Levava também três ou quatro livros, eu queria fugir mas não queria ficar sozinho, eu e os livros e tudo o que eles me diziam, eu fugia por estradas escuras para os que me viam fugindo, mas eu fugia mesmo era pela escuridão da minha imaginação. Sim, nem mensurável era pra quantas cenas imaginadas fugi por cada linha engolida de cada um dos livros que levei, mas fugia e fugia duplamente, sabendo que de ambas as fugas eu iria voltar.
Levei um computador, a vida é dual  eu compreendia, compreendia que fugia pra um lugar onde todo mundo sabia que eu estaria, ora, mas eu não fugia? O computador era para falar com as pessoas de quem eu fugiria se de fato aquilo fosse uma fuga, mas as estradas fugiam.
E fugiam sabendo que a escuridão também fugia e que a cada hora clareava mais, porque eram fugitivas de mim e eu da claridade, as estradas dos pneus e eu da realidade.
Eu só me lembro que fugi indo e que depois fugi voltando, que fugir indo foi melhor do que vindo, sei que o horizonte fugiu mas que eu também fugi do céu e dos astros e das estradas e também da escuridão. Quando fugi era escuro e clareou, quando voltei da fuga era claro e escureceu, eu só me lembro da lembrança que não me foge a mente e da sensação que não me foge ao coração, porque eles não fogem de mim e não fogem sabendo que estão ficando, sabendo que não estão fugindo como eu fugi, duplamente.

domingo, 10 de julho de 2011

Uma Reflexão Acerca do Sentido das Coisas.

Tratadas questões essenciais e como já dito, "sempre prestes" como a Liberdade, o Amor, a Felicidade e as coisas duais como o Desejo, as Vontades, a Vida e as Virtudes é necessário saber para onde a conjunção de todos esses elementos há de nos levar por consequência ou pelo próprio caminho da construção de suas imagens. À isso vamos dar, neste momento, o nome de "Sentido das Coisas".
 Pensar no "sentido das coisas" nos exige fazer duas perguntas que vão abrir as portas e mostrar os caminhos pelos quis nós podemos desvendar os segredos contidos nessa expressão:
O que é o sentido das coisas?
Quando podemos percebe-lo, senti-lo e identifica-lo?
É prudente que pensemos o que é o sentido das coisas. Há muito tempo tratei, dadas as minhas reflexões que procuravam e ainda procuram desesperadas respostas às coisas urgentes da vida, da criação e da existência das coisas e por conseguinte das idéias e suas delimitações nos dando referencial de final e de começo de tudo o que há, do que existe.
Porém, para tratar do sentido das coisas é preciso abandonar a noção de começo e fim e assim, desafia-las.
Se o sentido das coisas tivesse uma noção geométrica e linear, em que a gente pensasse em uma linha onde a orientação do caminho a seguir indicasse esse sentido, então tudo estaria resolvido pois as determinações elminam as implicações do refletir, portanto o caminho da reflexão é o questionamento, para que as coisas não percam a razão de ser, o seu motivo, a sua essencialidade.
Subjetivamente, pensar em sentido das coisas nos pede um passeio pelo império daquilo que temos de mais aguçado, o nosso campo sensorial, das lembranças, da noção de passado, presente e futuro e isso se relaciona com o "quanto" já vivemos e em "quantas" situações distintas já nos encontramos.
Transpor esse pensamento do sentido das coisas para essa lógica subjetiva nos mostra exatamente o seguinte:
Quando estivemos no passado, que um dia foi presente, pensamos que o sentido da vida e das coisas era "um", quando aquele presente virou passado e futuro virou presente, vimos outro sentido e agora que aquele presente é passado e estamos agora mesmo consumindo o futuro, vemos outro.
O que se pode concluir do sentido das coisas? Mutável, instável e imprevisível, porém, indispensável.
Cada ano de vida e cada experiência nos reposiciona no papel de observador e muda a perspectiva de observação que fazemos das coisas e da vida, por isso é que quase sempre esbarramos na necessidade de "abandonar o velho" para iniciar algo novo, porque o velho a que nos referimos é um sentido para o qual não há mais caminho, para o qual nem a noção linear, nem a noção subjetiva nos serve mais, para o qual a única saída é criar um novo sentido, delimitar uma nova rota, trilhar um novo caminho.
É exatamente aí que podemos responder a segunda questão: Ora, se tudo isso, se esse reposicionamento do nosso papel de observador depende do "quanto" e em "quantas" a gente viveu, é possível simplificar e dizer que a cada nova idade nós vemos um sentido e vamos reposicionando a direção das nossas vidas. De fato.
É por esse motivo que pegamos fotografias antigas e percebemos que quando daquele registro, ´pensávamos em algo que hoje está afastado, que passou e ficou muito longe, com pretensões, sonhos e projetos. Inclusive se o sentido que haviana época,  foi hoje atingido, a obrigatoriedade do "seguir" nos pede mais sentido para continuar.
Assim, vale um convite para que, munido de um repertório musical que trate sobre "o sentido das coisas", todos nós continuemos a refletir sobre qual era o sentido no passado, qual o do presente e qual será o do futuro, aliás, as coisas andam tendo sentido na sua vida?

Agora esquece essa intenção que a vida acende o candelabro da razão...

Eu quero andar por onde
Ainda se ver somente o sentido
Puro sentido...


Trechos: Cacos - Vander Lee / Levo a Minha Vida Assim - Monique Kessous

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Uma reflexão acerca da Liberdade.

Talvez porque eu não tenha refletido que algo que não se sustenta em períodos de "repouso", não pode se não ter sido mal fundado em algum momento de sua dada construção, por força da circunstância ou por certa impossibilidade de mais forte se fazer ou ser tão pura e simplesmente. Há que se pensar nisso.
Talvez ainda a idéia de construção dê às coisas ou aos objetos consagrados pelo desejo e pela vontade, virtudes alimentadas pelo sonho humano, uma certa estaticidade às conquistas já findas e que nos restam preservar, que assim nos abale o perigo de que a brisa primeira as destruam, as levem,e nos provem que na arte de construtor, devamos em algum ponto ter falhado.
Algumas imagens um pouco estranhas são marcas do que o desejo e o sonho tem de tão dual, como por exemplo, a imagem de liberdade.
A liberdade! O que sérá a liberdade? Certa vez vi em um filme, um curta chamado Ilha das Flores, e talvez seja o que já ouvi de mais marcante sobre esse estado de ser livre que a gente tem e luta e busca e sempre sente que ainda falta e aí está:
 
"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda."
 
Numa reflexão mais profunda a construção da liberdade é um processo doloroso e em alguns casos ilusório, sobretudo porque é relativo o lastro desse conceito para cada um. As imagens que tenho de liberdade, são em geral imagens de algo batalhado, sofrido, são imagens duais de conquista de um estado de liberdade ao mesmo tempo em que essas imagens me soam estranhas e doloridas, doloridas permanentemente, como uma condenação de liberdade, como uma prisão no estado de ser livre. Daí a dualidade da imagem.
Por outro lado, assim como falou Paulo Freire em sua obra, concordo que a liberdade é uma busca, um desejo daqueles que se entendem como ser inconcluso, na condição de humano interminado buscando se humanizar, daí que a liberdade me parece ser assim, tão tangencial, tão passageira, às vezes até volátil e capaz de evaporar.
Pra falar a liberdade assim, instável, atemporal e eterna ao mesmo tempo, Caio Fernando Abreu me empresta um trecho do conto chamado "Pela Noite", onde ele diz:
 "Porque é assim que é. Naturalmente. As coisas sempre prestes a serem apanhadas. E você eternamente prestes a apanhá-las. Como uma sina. Sempre prestes."
Nesse processo de construção, em alguns momentos acreditei, e ainda acredito, que negar algumas "algemas" de tudo o que "está aí" foram importantes na composição dessas idéias, ainda que eu não discuta o mérito de cada uma, mas neguei algumas crenças e até instituções.
Neguei e nego a existência de Deus, a credibilidade da instituição família e a crença nesses valores que ferem a coisa que mais me incomoda sentir falta: A liberdade.
Óbviamente que compreendido enquanto ser inconcluso, talvez eu viva "Sempre prestes" e não a alcançe, mas aí relativizo o conceito e chamo pra mim essa coisa que é quase como ter o "direito" à liberdade de sonhar, de compor idéias e de lutar por aquilo que no plano real/material/palpável representa a sedentação da sede da liberdade intrínseca do homem inconcluso que mesmo buscando algo que não há de achar como água em fonte, quer dela se saciar ainda que por representações distorcidas de uma realidade que é legítima por ser antes a dele, decisória, escolhida e permitida em virtudes e falhas, erros e acertos. Porque como disse Caio também e assim o penso:
"Não tenho nada contra qualquer coisa que soe a: uma tentativa."
Pois de fato, o que a gente não pode deixar de ter é o sonho, o desejo e a coragem de ser livre.


 


 
 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Uma reflexão acerca dos nossos sonhos, da vida e das experiências.

Alguns dos meus sonhos não eram os sonhos de alguns que, como eu, tinham a mesma idade e viviam um mesmo momento. Nem maiores, nem menores, nem mais caros ou baratos, nem melhores nem piores, eram apenas sonhos.
Todos alí tinham uma certeza: a vida passava a chave na última tranca dessa porta que ficou por anos aberta e seria preciso abrir outra, ou então, trilhar aquele caminho que vivia aberto mas que lhes fazia abrir mão de algumas outras coisas. Eu como sempre, escolhi o mais difícil: vamos abrir a próxima porta.
Depois que você abre essa porta, você descobre que essa não era a tarefa mais difícil, portas são apenas portas, caminhos é que não são sempre caminhos.
Como trilha-los?
Acredito até que por hoje esses que me viram num momento anterior à esse, admiram o fato de eu ter aberto outra porta e mais do que isso, estar trilhando um novo caminho, mas acho, sem dúvida que o valor das experiências e esse sentimento mágico que só os brasileiros conhecem em profundidade, que é a saudade, dignificam o momento presente e permitem que num momento futuro, este momento que agora se vive e que logo será passado, ganhe um valor imensurável do que se viveu, das coisas e das pessoas, enfim, de tudo.
Sem medo, se ainda não abriu uma porta nova na sua vida, eu te convido a fazer isso amanhã.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Eis o pior e o melhor de mim, o meu termômetro, o meu quilate.

Pior porque doeu, coloquei tudo a perder, me prendi, me soltei, me segurei, me deixei levar pelo que senti.

Melhor porque me descobri, me fiz mais forte, resisti, me aceitei, vi o mundo com outros olhos, entendi o valor de coisas que eu condenava, vi pessoas que merecem respeito e que antes eu não saberia respeitar, vi que ser feliz não é uma regra e nem tem um jeito só de se-lo, descobri que posso ser maior do que eu mesmo e não caber em mim de vez em quando.
Que furar o bloqueio não mata se soubermos segurar a onda, que aprendi a esperar na adversidade e a ter esperança no desespero, dormir na dor, acordar com o mesmo amor de sempre e lutar com a mesma garra que tive, mesmo quando eu não me conhecia e lutava por causas que não eram minhas, sofria por dores que não doiam em mim.
Hoje eu descobri quem sou eu, vivo em mim, definitivamente.
Me sinto mais dono de mim depois disso.
Não preciso acreditar no que decidiram que eu sou, de fora pra dentro, a imagem do espelho não reflete quem eu sou. O que vale é o que eu sinto, porque é isso que me move e que me faz ser e pensar como sou e penso.

Vem, cara, me repara
Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim




Preciosidades.

A única coisa que me dói é não ter, nem ver coisas concretas, me diga "agora não", "depois", "mais pra frente" mas não me seja tão reticente. A sensação de estar num banho maria é dolorida, eu não nasci pra estar na estante, nem no altar, até por isso não sou santo. Mas mortal, carnal.
Eu vou cuidar, vou entender, vou esperar, vou tudo o que você quiser, mas me prometa, me jure, me assine dizendo que não vai me deixar. Agora procuro coisas plenas, amor concentrado, não diluído, em doses altas, puro, essencial.
Ou é ou não é. Eu só quero um amor de verdade e os de verdade não são roubados, nem comprados nem nada, são porque são e acabou. Preciso de uma utopia amorosa pra viver em paz, de uma ilusão doce que me proteja, que me envolva, que me ocupe, que me dê novas razões.
Me perco todinho nesse monte de necessidades vitais que eu tenho e que se empilham esperando a ordem de embarque que o tempo determina. Tenho um punhado de besteiras e bobagens, ilusões, desenganos, algumas mentiras e esperanças vencidas, azedas pra jogar fora. Mas a questão: como?
Acho que descobri um novo tipo de lixo: o lixo sentimental, do qual tenho toneladas.  Por favor, uma Política Universal dos Resíduos Amorosos.
Ainda que imune de pretensões, dava pra notar o contato discreto com todas as pré-tensões dessa nova realidade que me fascina e assusta, isso porque às vezes ninguém vai medir, se ficar ou partir, vai fazer-me sentir alguma diferença. E por que? Porque a vida alí era morna: não queimava os momentos bons e não congelava as passagens ruins.
Até por tudo isso, o não sentimento de falta não pressupõe a presença, admite que na ausência de alguém para sentir falta, há ausência de tal sentimento também.
Haviam particularidades que você expunha sem medo de nada e que minha hipocrisia adorava guardar em silêncio sob o manto da falsa moralidade. Comigo, sempre foi normal eleger paixões, escolher por quem suspirar, como num sorteio onde tudo depende do que vier à nossas mãos, anonimato não doia.
Mas ocorre, que só nas coisas que escrevo "você" abre mão de ser pronome de tratamento para ser pronome indefinido, a gramática sabe que espero por alguém. Gravado nos olhos, mas afastado do coração, você foi o pecado que um dia eu quis pra mim. Eu desejava ser você ou um dos seus, o importante era estar na sua vida de alguma forma, eu só sabia olhar como quem olha da janela extremamente limpa e bem vedada, do alto de um prédio, essa tua vida que alucina e faz suspirar.
Mas sabe, não gosto de tabus que não possam ser quebrados, de obstáculos que não possam ser ultrapassados, de silêncios que não possam ser rompidos, viva a sociedade anônima dos que guardam a felicidade dentro de um recipiente chamado MEDO!
Porque mesmo apesar de tudo isso, me era ainda possível listar, ainda que sem nomes, quantos foram os últimos amores dos meus olhos, pois só eles se apaixonavam, o resto do meu corpo só sofria.
    

domingo, 27 de março de 2011

Não ter porque.

Deixa eu cuidar de você e te fazer sentir-se bem ou ainda em menor estado de embriaguez possível.
Para além disso me permita embriagar-te do que não sei se tem visto nos últimos anos e que sabemos que não verás, nessa mesma embriaguez de que falo, pelos próximos anos.
É de trato, cuidado e carinho que quero embeber teu coração, é de mãos macias que quero envolver o teu rosto, é de calor que quero abraçar o teu corpo.
Saia, ou me deixe tirar-te, dessa sua loucura pobre, desse momento de conformação etílica, desse sentir-se nada, da auto-crítica não sóbria, dessa fugacidade.
Apenas me dê as mãos e um beijo com gosto de chance.

Para onde?

Eu e o baixo clero de toda uma época disputávamos o extremo fundo do poço.
Competíamos com os mais estúpidos seres por espaço no limbo, por mais breu na escuridão.
Queríamos mais inércia na inoperância e agitação na louca frenesi, queríamos o que ninguém por maior estado de loucura desejaria.
Queríamos o fim, a fossa, o lodo, o lixo.
Sermos os mais despreziveis seres, nos colocaria no topo do fim, na mais nobre das mais desprezíveis colocações da existência.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Os meus segundos vazios pra preencher com você.

Eu não queria mais nos protelar, naquele momento nada mais parecia conspirar para que eu fosse convencido a esperar, nem mesmo você e aquela falsa boa-vontade que lhe rondou durante os últimos meses.
Eu vivia um tempo mágico e era melhor que nos encontrássemos logo, antes que além de faltar a magia, acabasse a vontade ou ao menos, a ânsia teimosa de tentarmos reconectar um sentimento interrompido contra a nossa vontade. Um erro conceitual, para mim, o sentimento não se interrompeu, só foi adiado.
Ocorre que agora eu era líder dos meus dias e governava até os segundos, como eu disse, num tempo mágico e isso é inédito.
Superados alguns dos traumas e crescido em coisas que eram obstáculos para nós, fui capaz de receber essa possibilidade de te-lo com a sobriedade de quem recebe as boas notícias que há tempos esperava.
A ausência de enorme entusiasmo ao ponto de me embriagar de felicidade não significa não sentir nada, nem paixão, mas que o sentimento amadureceu, de que eu amadureci, de que estamos prontos um para o outro.
Não vou mais protelar, vezenquando meu peito se enche de amor por você e de vontade de te ver, tenho a certeza de que esse tempo mágico, o governo dos meus segundos e a nossa inssistência em preencher meus tempos vazios com o que há em nós e do que somos juntos, acabou com o triste e dolorido tempo da espera.
Eu te amo.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A menina Gabriela.

Sinceramente...
Ia demorar pra aquela conta ter resultado exato depois da igualdade, do outro lado só teria um par se ela encontrasse um detalhista como ela. Um detalhista que se importasse com as mínimas coisas e notasse nuances importantíssimas em fatos que para os brutos passariam banais, sempre.
Alí morava a inequação da sua vida amorosa: do outro lado o resultado era coração quebrado porque ninguém via na vida detalhes como ela via.
Rolava então o pranto, como numa inequação rolavam as repetitivas e desencorajadoras dízimas periódicas...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Uma dose de nós dois.

A ânsia de vômito é a mesma, os fatos que me enjoam e me machucam são iguais e na verdade a distância me põe ainda mais de perto, de joelhos. Mas não quero saber disso, essa conta tá na minha mesa mesmo que meu copo esteja vazio, não encho o copo e nem pago-a, ignoro ambos e a mim.
Me importa se há quem encha teu copo, pague sua conta e te realize quando concluírem o caminho da tua casa? Nada tenho eu a ver com isso...
Eu me embriaguei da sobriedade que o copo vazio e a conta injustificada me impuseram depois da overdose de você.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Desprotegido

Eu já te imaginva a sentar-se de frente pra mim aos Sábados pra conversar e me ouvir, me falar e passar broncas que só quem protege pode dar. Eu só precisava de alguém que mesmo que não fosse, fingisse ao menos pra mim, ser mais forte que eu e dissesse que valho muito e que me ama.
E não era só ter, era merecer, eu precisva merecer o amor e a proteção que me desse pra viver em paz. Era uma força e uma proteção que costuma existir em todos os homens mas que veio faltando em mim e que eu teria de encontrar n'outro alguém. E então conclui que eu precisava de alguém que não atacasse minhas fraquezas, que não me condenasse a lutar, que apenas me protegesse. Quando aquela droga de pneu furou e tive que me virar, me senti como se não valesse nada, só queria correr pro teu abrigo, pros teus braços.
Meu desespero era tão grande que eu seria capaz de desabar de chorar se te visse, que eu seria capaz de te chamar mesmo sem saber teu nome. É uma proteção que eu não tenho como dar a ninguém e que não terei de qualquer um.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Um fundo branco com estampas coloridas e você outra vez.

Em outros tempos eu agradeceria a sua existência, o teu sorriso iluminado e a esperança que sem saber fez nascer em mim quando mais precisei.  
Veneraria a luminosidade que a sua passagem sempre ofertou aos meus olhos, por dias a fio mergulhados na escuridão, como hoje brilhou também. 
Eu diria a mim mesmo que você substituira, como no meu sonho latente, um amor imtempestivo que chegou, fez estragos e se foi, desejaria você.
Mas hoje agradeço nossa tão pequena e tão grande distância, o teu jeito, o que ganhei te olhando e te amando em silêncio, a esperança ainda viva.
Você é só um sonho, uma miragem real, um platonismo com mil vezes de zoom, a distância mais próxima que conheço, um querer ameno e pacífico.



"E se veste de um jeito que só ela
Ela vive entre o aqui e o alheio [...]
O que faz ela ser quase um segredo
É ser ela assim tão transparente"

Altruísmo dos Desiludidos

Fato é que eu rezei de joelhos só pra te dizer o quanto o amor foi bom, mas é que hoje me olho no espelho e aí não me esqueço da sofreguidão.
Me contorcia de pensar num jeito dessa agonia não viver mais não,até que um belo dia me virou as costas, pegou suas coisas e foi tudo em vão.
Correu pros braços e pra o descaso de quem te amou e depois te quis mais não e eu que aqui sofri calado, cortei um dobrado, fiquei na mão.
Mas não lamurio, não peço que volte e nem nada não, desejo que seja tão feliz que possa um dia lembrar-me com admiração.  

"Chorando se foi, quem um dia só te fez chorar..." 

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Singularmente Importante.

Vivia um aparente descompromisso com a urgência da vida, bagunçava com a imaginação alheia, que fazia da tua idade uma icógnita, ao mesmo tempo em que parecia não viver dramas aparentes, seu olhar era de curiosidade contida, natural e despretenciosa, pouco trêmulo, levemente fixo e pouco compenetrado.
Tinha um ritmo compassado particular e quase único de cruzar sempre o mesmo caminho, rumo ao mesmo lugar, sem receio algum de ser furacão na vida ou na imaginação de alguém. Parecia sempre pouco se importar com o resto, tinha um jeito próprio, um estilo singular e sob medida, uma nítida preferência ao se vestir, repetindo as roupas que quisesse sem se preocupar se sua passagem pudesse ser ou não amorosamente vigiada pelos olhares que sempre se apaixonam pela sua imagem a cada vez que a encontram.
As apostas dos olhares de seu admirador secreto e exposto ao mesmo tempo, observador quase declarado, pareciam nunca perturbar aquele universo particular que havia na sua mochila misteriosa, onde um pedaço de mundo com milhões de revelações de ti, dividiam espaço com o esclarecimento pessoal que aquela mente até então desconhecida devia guardar.
Te via ir, te via voltar, te via sair e te via voltar e as vezes te via ir de novo, reconhecia as roupas com as quais estava quando dentre as tantas vezes, estes olhos se apaixonaram, restando sempre então a espera, uma falsa esperança e a presente companhia da tua ausência.

domingo, 8 de agosto de 2010

Tem de haver um caminho

É um paradoxo, tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Eu que saí a rua com pretexto de ver meus irmãos empinarem pipa mas querendo descobrir qual casa é a sua, ouvi tilintar um cadeado.
Desse cadeado que tilintou e acelerou meu mediano coração, olhei e vi um portão abrir, parecia contigo mas sei que não era, estava longe, porém sendo você ou não só notei a impaciência de alguém que também espera algo ao olhar pro horizonte e chuta o ar em protesto, olhei fixamente. Entrou, saiu várias vezes, olhava pra trás quando eu voltava pra onde estava e olhava pra minha direção quando eu avança, tilintando o cadeado.
Já de noite, o cadeado tilintou pela última vez e o portão se trancou. Peguei esse momento e resolvi entrar pensando: "Tem de haver um caminho" .

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Quarteirão do Abismo

Acreditei até que não morasse mais aqui, nessa grande rua onde aportei também a minha vida, imaginei por alguns dias que viesse aqui a passeio ou sei lá, mas de longe fitei a casa em que você habitualmente abria o portão nas tardes em que te vi, pra sair ou pra entrar com todo o seu mistério sob a minha curiosidade silenciosa.
Depois de dias sem te ver por alí passar com sua habitual presença, que se faz notar e que parece me atrair mesmo quando não te espero, foi olhar pra rua pra te ver passar e virar o rosto na minha direção, que como aqui já disse, atrai como magnetismo inexplicável de algo que eu não sei o que é, mas que há.
O teu olhar, para o qual não achei definição, que em geral é em certa parte cerrado, seja de sono ou de preguiça de arregaçar as pupilas para o mundo, sob aquele cabelo que procura cobrir-lhe um pouco a testa como que no mesmo esforço de poupar-lhe do que há no entorno, somado a aquela face que não sei bem definir se de inexpressividade por querer ou simplesmente por não ter preocupação alguma que lhe faça pesar os traços da expressão facial que sempre porta, me fez rir algumas vezes por concluir que aquele jeito de olhar é o olhar da meninice sua.
Teu andar compassado, parece agitar o ar num ritmo quase dançante, que se pode perceber e poderia ate mecanicamente se desenhar conforme se olha para o cano do seu tênis, que é pouco habitual, fazendo par e conjunto com as calças do tipo que sempre usa, por vezes discretas e por outras extravagantes, como no dia em que te vi e considerei que estivesse tornando, se é que daqui não é ou algo assim, usava calça verde, mas era um verde meio azul que dependendo de quem olhasse poderia parecer mais viva do que realmente era, mas em você ficava interessante.
Portava nas mãos um objeto que não sei dizer qual era, mas era semelhante e por isso julgo que devia ser primo ou parente próximo do "iô-iô", com uma corda que você atirava ao chão e ele então se projetava e fazia um barulho que por um momento achei ser dos teus passos, mas depois vi que não. Como de hábito acompanhei o teu andar até que paraste na habitual calçada, fechando os metros que dividem o nosso contato, onde você com aquela mochila nas costas abriu novamente o portão que te engoliu como que por ironia, sabendo simplesmente que eu alí tão perto de você lhe perdia não de vista mas para um portão que inoportunamente me deixava na sorte de qualquer dia lhe ver outra vez, sem nunca saber quando seria este dia.
Minha presença também foi notada por você talvez quando eu também notei a sua e não sei como pensou nisso mas há duas possibilidades para as quais dou valor de consideração.
Se fores daqui antes do que eu, eis que imagino ter se perguntado como nunca me viu, ou então que se fores gente nova por aqui talvez tenha achado legal que na vizinhança haja alguém de tão próxima idade assim. Aliás idade creio eu que seja tão próxima a ponto de que variemos em dois anos para mais ou para menos um do outro, mas não importa. Tivesse eu com você a chance do contato hoje quase impossível, sonharia em ter por ti e de ti metade do que tive com meu último romance, confesso que aí o portão não mais te engoliria e tomaria de mim por tempo indeterminado.
Mas o fato é que eu gosto das poucas vezes que te vejo e desejo sempre ver mais uma vez, ainda que sejam escassas e que durem pouco frente o espaço de tempo em que elas acontecem, por isso quando vejo-te, me ofereces inocência, pelo menos assim julgo, e eu faço questão de devora-la com olhos de comer presença e observar teus passos quase ilesos, que dessa vizinhança toda talvez só eu note, simplesmente porque nessa cidade onde as ruas só sabem vender ilusões a preços altos, eu sempre as compre a pagamento à vista.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Varanda Vazia, Cheio Coração.

Foram juras de amor trocadas em silêncio
Sob a batida complacente de um coração
Que batia e pulsava como aberta a ferida
Que sangrava e doía feito uma canção
Feito a canção que tocava no rádio
No Rádio e na minha estação
Sob o aroma daquela tarde perdida
Que perdida estava sem mais presunção
Foi quando ao raiar da aurora e o fim do dia
Baixaste a agonia do anfitrião
Ao bater fortes palmas ardidas
Clamando o meu nome
Desesperadamente em frente ao portão
E eu que atendia a chamados 
E buscava saída pra essa prisão
Encontrei em você minha vida
Mesmo que encontrar-te fosse a minha perdição.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O café acabou, o fogo apagou e o amor terminou.

Foi assim, numa tarde preguiçosa de Domingo, no Café Xadrez, que a moça de vestido preto e branco gostou do pensamento alto do cavalheiro de preto que bradava aos amigos de mesa as suas filosofias de vida. Foi aconchegada nas palavras firmes que saíam daquela boca eloquente e calavam fundo em suas mais íntimas mazelas, que a donzela guardou na mente cada palavra daquele despretencioso senhor que a vida alí lhe apresentara, por um instante, ela moveu os lábios em silêncio repetindo o que ele dissera como se tentasse escrever letra por letra em sua própria alma, pois sentia ter encontrado verdades para si onde nunca antes havia procurado.
Passou-se a semana e no Sábado lá estava a moça no Café Xadrez, pronta para repetir, talvez em volz alta, as filosofias de seu mais novo orador eleito e não diferente lá estava ele a capitalizar a atenção com suas verdades de mesa para os que quisessem ouvir. As falas do cavalheiro chamavam a atenção da moça tanto quanto os olhos dela focados na mesa dele o faziam sentir certa inquietação e ansiedade por satisfaze-la ao mesmo tempo em que lhe instigava saber o por que de tanta atenção no que dizia.
No Sábado, no mesmo Sábado, mas já a noite, os dois travaram um diálogo acalentado por um imenso brilho, quando em voz alta ela repetiu sem esquecer sequer as vírgulas, os mais fortes versos por ele proferidos.
Por horas a fio e pela madrugada, já fora do Café e em voz alta, foram até o amanhecer se apaixonando e se encontrando onde jamais imaginaram se achar, estavam alí um para o outro e cada um por si sem medo de entrelaçar palavras como quem dá as mãos para seguir em frente sem querer solta-las jamais.
A semana passou, o outro encontro não veio e o sumiço do moço dos versos mágicos fritou na cabeça dela a precipitação de tal romance já que este fora tão rápido ao ponto de que ela já sentia-se possuidora e possuida dele e por ele ao mesmo tempo.
Ele tentou se esconder e tentou fugir, nunca negou que em certos aspectos tinha medo, em outros era moralista demais e em outros simplesmente preferia se abster, mas num Domingo quando descia ao litoral para tentar esquecer quem jamais esquecia, recebeu um bilhete por ela assinado onde o objetivo principal era passar recibo do que ele sentia. Foi o suficiente para que o Domingo fosse regado à saudade, aflição e um bocado de sonhos insanos.
Ele não dormiu, quis ver o sol nascer, as nuvens se ajeitarem no céu, a lua encontrar seu lugar, o oceano deitar as ondas no mar e ele o seu coração por sobre o coração dela. Ele quis jurar para si por um momento, que um dia repetiria a mesma cena, porém, tendo ela ao seu lado.
Veio então a Segunda, a Terça e com ambas as declarações de amor, afeto, carinho, promessas, sonhos e o primeiro sinal de companheirismo quando juntos, resolveram redigir a carta que ela a tanto devia a uma tia do estrangeiro, que sempre a corrigia na escrita, foram momentos mágicos de amor e sintonia, mas passou.
Veio a Quarta e com ela o mal-estar do rumo que a Terça-Feira tomou quando no meio das lembranças ela deixou escorrer uma grama de algumas degradantes experiências de seu pretérito imperfeito, fora demais para aquele coração de poeta tão desprotegido de amar.
O mal-estar se estendeu até a Quinta-Feira, quando o nobre poeta, convencido de que sua dama agora o fingia amar e querer, entendeu que o fim era certo e achou na conversa da amada com o músico da livraria um motivo para fechar-se em desconfiança ao som de um expoente do amor efervescente que sentia.

"Ontem, com esses olhares me feriste. E meu coração quase parou. Agora, longe de mim talvez mentiste. Sonharás com um amor que já passou".

Ele então não queria mais ve-la, porém não conseguia fugir, era inevitável que ele se rendesse aos encantos daquele amor. Naquele instante ele suspirou, bateu na velha mesa onde bradava versos, no velho Café Xadrez onde empenhou dias de sua vida, quando ao olhar para a rua ouviu outra vez Adoniran, sim o velho Adoniran da terra da garoa, resumindo aos ouvidos dele o amor e toda a dor que sentiu por ela naquelas semanas.


"Pode apagar o fogo Mané Que eu não volto mais !"

E assim ele se curvou, já que o fogo do lampião, o fogo do fogão e o fogo da paixão apagaram-se.

Memórias de um Íntimo Segredo.

Cultuo o arte de manter pessoas desnecessarias ao mesmo tempo em que me falta por perto quem eu queria proximo.

Me lastimo por coisas que não dependem de mim e sofro pela simples inconformação inssistente de teimar com o tempo...

O segredo é ver o tempo escorrer em minutos e segundos enquanto o vento sopra a vida para a sucessão dos fatos acontecerem...

  É a tipificação do abstrato, a caracterização do heterogêneo, a significação do indecodificável sentir.

Tem dias em que encontramos razões como quem nada procura e de tanto procurar no nada, nada deixa de descobrir no que não acha!

E considerar que o que não sê se assemelha à intensidade daquilo que se sente é admitir que há no desconhecido o calor do novo uma surpresa.

Escrever descaracterizando o que se idealiza é a arte dos que embaralham palavras aos olhos dos que buscam respostas nos que escrevem.

E compreender o relevo da vida não significa relevar a tudo, bem como dizer e escrever o que sente não necessariamente implica em revelar-se    

Quando me ver poético considere que existe a esperança, quando me ver em lástimas sem razão aparente, considere que sou todo amor. 

E pra quem quer ser feliz um ponto no horizonte basta, então se és agora o meu ponto, emita-me sua luz, ilumine meu chão, me leve a você e faça-me notar sua presença nessa noite que sopra a busca dos que amam amar.

Sufoca-me com a tua conveniente presença e depois mata-me com sua impiedosa ausência que impiedosa se faz por ser antes importante. 

E tão imediata que foi a dúvida acolhedora do medo, que transformou-se em certeza iluminada fazendo-se guia do inesperado e futuro ausente. 

E ter medo de ser feliz e ter medo de ser feliz pra que? A única razão de te buscar em mim é porque me acho em você. 

Talvez loucura, talvez perdição, pra aquilo que ainda não foi dito sim me permito entender que não haverá de ser não. 

E quem foi o aventureiro jamais surpreendido na arte de desbravar? Não deve ser o mesmo que não pensa duas vezes para voltar a se aventurar.